Muitas mulheres chegam aos 40 ou 50 anos com uma surpresa nos exames: o colesterol aumentou, mesmo sem grandes mudanças na alimentação ou no peso.

E então vem a dúvida: a menopausa pode mexer no colesterol?

Pode. Mas entender essa relação é mais importante do que simplesmente olhar para um número isolado no exame.

A transição para a menopausa é acompanhada por mudanças hormonais, metabólicas e na composição corporal que podem modificar o perfil cardiovascular da mulher. Por isso, essa fase merece um olhar mais atento para fatores de risco que, até então, talvez nunca tenham chamado atenção.

O que acontece com o colesterol na menopausa?

Durante a transição menopausal, podem ocorrer alterações no perfil lipídico, incluindo aumento do LDL-colesterol — conhecido popularmente como “colesterol ruim” — e mudanças em outras partículas relacionadas ao desenvolvimento da aterosclerose.

Isso não significa que toda mulher na menopausa desenvolverá colesterol alto.

Significa que essa é uma fase em que vale a pena reavaliar o risco cardiovascular.

E existe uma diferença importante entre ter um colesterol alterado e ter um risco cardiovascular elevado.

O LDL é importante, mas ele não conta toda a história

O LDL tem papel fundamental no desenvolvimento da aterosclerose e continua sendo um dos principais alvos da prevenção cardiovascular.

Mas a decisão sobre como conduzir uma alteração do colesterol não deve considerar apenas um resultado laboratorial.

Idade, pressão arterial, diabetes, tabagismo, função renal, histórico familiar e outros fatores ajudam a determinar o risco daquela mulher ao longo do tempo.

Até aspectos da história reprodutiva podem ser relevantes.

Menopausa precoce, por exemplo, especialmente antes dos 40 anos, está associada a maior risco cardiovascular futuro.

Por isso, duas mulheres com exatamente o mesmo LDL podem receber orientações diferentes.

Existem outros exames além do colesterol tradicional?

Em algumas mulheres, sim.

Dependendo do perfil de risco, exames como apolipoproteína B — a ApoB — e lipoproteína(a), conhecida como Lp(a), podem acrescentar informações importantes.

A Lp(a), por exemplo, é determinada predominantemente pela genética e hoje sua dosagem ao menos uma vez na vida adulta pode ser considerada para identificar pessoas com risco cardiovascular aumentado.

Já a ApoB pode ajudar a estimar melhor a quantidade de partículas aterogênicas, principalmente em determinados contextos metabólicos.

Isso não significa que todas as mulheres precisam sair do consultório com uma extensa lista de exames.

O ponto central continua sendo o mesmo: o exame precisa responder a uma pergunta clínica.

E quando ainda existe dúvida sobre o risco?

Existem situações em que os fatores tradicionais não são suficientes para definir a melhor estratégia de prevenção.

Nesses casos selecionados, a pesquisa de aterosclerose subclínica pode ajudar.

Um dos exames utilizados é o escore de cálcio coronariano, realizado por tomografia, que identifica a presença de cálcio nas artérias coronárias e pode auxiliar na reclassificação do risco cardiovascular.

Mais uma vez, não é um exame necessário para todas as mulheres depois dos 40.

A indicação depende da idade, dos fatores de risco e, principalmente, de quanto aquele resultado poderá mudar uma decisão médica.

E a reposição hormonal?

Essa é outra razão pela qual avaliar o risco cardiovascular durante a menopausa é tão importante.

A terapia hormonal não deve ser prescrita com o objetivo de tratar colesterol alto ou prevenir doença cardiovascular.

Quando existe indicação para o tratamento dos sintomas da menopausa, a decisão deve considerar idade, tempo desde a menopausa, sintomas, antecedentes pessoais e o risco cardiovascular individual.

Ou seja: a pergunta não deveria ser simplesmente “hormônio faz bem ou mal para o coração?”

A pergunta mais adequada é:

qual é o perfil de risco desta mulher e qual estratégia é mais segura para ela?

A menopausa pode ser uma oportunidade de prevenção

Talvez essa seja a mensagem mais importante.

O aumento do colesterol identificado depois dos 40 não deve gerar pânico, mas também não deveria ser ignorado como “coisa da idade”.

A menopausa é uma excelente oportunidade para revisar pressão arterial, colesterol, glicemia, composição corporal, atividade física, tabagismo, sono, histórico familiar e outros fatores que influenciam a saúde cardiovascular.

Porque cuidar do coração da mulher não começa quando aparece uma doença.

Começa quando identificamos o risco a tempo de tentar evitá-la.

Depois dos 40, entender seus números é importante. Entender o que eles representam para o seu risco cardiovascular é ainda mais.